segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Hoje eu queria muito...

Muito! Muito! Queria muito mesmo. Muito mais do que a vida tem reservado pra mim; porque até agora, foi muito trabalho, muitas perdas, muitas tristezas.
"Tu é guerreira!" - dizem as pessoas, (adoráveis pessoas que Deus coloca em meu caminho); Mas, e o dia em que eu não quiser lutar? E se eu perder uma batalha?! Poucos sabem, mas já perdi tantas, apenas não me rendi frente as adversidades.
Hoje é o aniversário do meu esposo. Está chovendo agora. Penso que são as lágrimas dos nossos anjos protetores. Eles lutaram muito pra que ficássemos juntos, tenho certeza. Choram, porque sabem que estamos chorando. E, eu sei que ele está chorando lá na cela 3, da Galeria E1 do Presídio Central.
Porque estou chorando? Estou me sentindo só, queria apenas um abraço dele, sendo que o abraço de hoje, tem que ser pra ele. Muito merecido, por sinal. Mais de um ano sem drogas e, muita força de vontade; Porque ficar sem drogas numa Clínica 'bacana' é fácil, mas, ficar sem drogas dentro do PCPA (onde tem mais oferta do que na rua, diga-se de passagem), isso sim é mérito!
É o segundo aniversário que ele passa no Presídio e essa angústia toma conta de mim. Só por hoje, queria provar da droga mais poderosa do mundo, que me fizesse parar de pensar na realidade e me levasse pra uma outra vibe, onde eu deletasse os problemas, a canseira, o estresse.
Estou com a voz embargada (será que um Desembargador ajuda a desembargá-la?), com o rosto inchado, com os olhos marejados. Coração apertado, vontade imensa de gritar: EU TE AMO!, em plena free-way, como sempre fiz em nossas viagens. São 27 anos de diferença que em nada nos diferem.
Somos dois adultos quando temos que resolver os problemas e, duas crianças, quando o assunto é nosso sentimento. É sem explicação, a conexão, a química e a física. Coisa que nenhuma grade, nenhuma cela, nenhuma sentença poderá tirar da gente, nossa paixão. Faltam alguns dias pro nosso aniversário de casamento. Quatro anos juntos. E nada se apagou.
Não sei se escrevo para ti, amor, ou para nossos leitores. Estou tão acostumada com essa situação de "nos sentirmos", mesmo de longe que, parece que estou na tua frente, proferindo palavras de amor. Amor, amor... Lembra das nossas noites?! Em breve teremos outras, maravilhosas. Não tão brevemente. Ainda temos o semi-aberto pela frente.
Escutei músicas que remetem nossos momentos, abri albúns, lacrimejei sobre fotos, brinquei com nosso filho. Essa foi a parte mais difícil. Brincar com ele, sem ver teu sorriso bobo, estampado nesse rosto lindo, brilhando através desses olhos azuis, que ele tem iguais - graças a Deus! -, herdou de ti.
Difícil é educá-lo longe de ti, mesmo que eu tenha a absoluta certeza, de que irás me atrapalhar na hora de repreender. Difícil amá-lo longe de ti, pois, nos completamos, os três! Difícil viver sem que estejas por perto, "...só tua presença, vai nos deixar felizes, só hoje...".

Posto para os leitores do Blog, as amáveis pessoas que nos acompanham nesta caminhada - mesmo que virtualmente -, um pouco do nosso amor, da nossa música, dos nossos segredos.

Gipsy Kings: Sin Ella - http://www.youtube.com/watch?v=C7NuD6vm2Mw

Ah... só para constar e, não parecer que o início do texto são apenas palavras ao vento:

HOJE EU QUERIA MUITO, MUITO MESMO!, QUE O TEU GRITO DE LIBERDADE FOSSE PROFERIDO.



domingo, 21 de outubro de 2012

Coisas boas!

Ontem, 20/10/2012, fui no PCPA visitar meu esposo, levei o Arrozinho também. Não há nada de diferente... Ops!, tem uma coisa de muito bom sim! Fizeram mais uma sala de revista corporal feminina. Uhuu! ótima idéia, iniciativa, investimento. Agora, temos duas salas de revista corporal feminina e uma masculina, o que significa, rapidez na entrada.
Ontem, foi um dia muito especial. Logo que cheguei as dependências do PCPA, avistei a BM Ivanilde e levei o Arrozinho pra ela "dar um xêro"; começa aí a parte boa. Ela me disse que imprimiu o texto "Amenizando o sofrimento..." - http://www.amornocarcere.blogspot.com.br/2012/10/amenizando-o-sofrimento.html - e levou para as colegas da Sala de Revista, lerem. E, TODAS leram.
Vocês tinham que ter presenciado as diversas formas de agradecimento que recebi. Muito gratificante. Sei que o pessoal da Brigada Militar é muito criticado, são hostilizados e vistos como monstros pelo familiares; mas, sempre tentei ter uma outra visão. Em todo lugar, há maçãs boas e as bichadas. 
Também não escrevi para "aparecer", jamais pensara que elas iriam ler, que chegaria até as mãos delas. Fiquei muito feliz e, reafirmo: se tiver que criticar, seja visita ou BM, criticarei. Espero que não se ofendam, até porque, fazemos todos, parte do sistema.

domingo, 14 de outubro de 2012

Amenizando o sofrimento...

Engana-se quem pensa que o Presídio Central de Porto Alegre é o pior lugar do mundo. Ledo engano. Eu mesma, grande criticadora do sistema, da situação, etc., percebi hoje em uma breve reflexão, que as coisas não são bem assim.
Não sei se já expliquei, mas, as crianças têm um sábado por mês para fazer uma visita ao seu pai. E, os meses que apresentam datas comemorativas - Páscoa, Dia dos Pais, etc. -, a direção do PCPA libera uma visita extra dos pequenos. Louvável atitude, diga-se de passagem; afinal, só o sorriso do meu filho quando vê o papai, poderia expressar o poder que essa pequena atitude traz consigo.
Além da visita extra, o pessoal da administração, decora a entrada das visitas. No Natal, haviam guirlandas, pinhas, bolas de natal, enfeites; no Dia dos Pais, cartazes e gravatinhas feitas em papel colorido; no Dia das Crianças, cartazes mostrando os Direitos Básicos das Crianças e, figuras relativas à infância, por todos os lugares - Patati & Patatá, Ben 10, etc.; tudo muito lindo sempre, muito caprichado e, parece ser feito com amor.
Dia 13/10/2012, levei nosso pequeno, para a visita "extra"; pois, no dia anterior era comemorado o Dia das Crianças. Passamos um dia maravilhoso. Nosso filhotinho, com sete mesinhos, está aprendendo a mandar beijinhos e, a primeira coisa que fez ao chegar na Galeria E1, olhou para o papai e atirou-lhe uma beijoca estralada. Chegamos a chorar de felicidade.
Ficamos aquelas horinhas, aproveitando para falarmos à respeito dos planos para quando soltarem o grito de liberdade, chamando pelo nome dele; aproveitamos para nos abraçarmos e brincarmos com nosso filhotinho. Aproveitamos, esse é o termo, mais certo impossível!
Já na saída, quando o coração aperta, nos beijamos, agradecemos à Deus, pelo dia maravilhoso e, já combinamos a visita no próximo sábado. Balbuciei um tchau e segui pelo corredor. Nunca olho para trás, pois, parece-me que os passos ficam mais lentos e pesados quando enxergo os olhos marejados dele, despedindo-se.
Cheguei nos computadores, onde registram nossa entrada e saída, entreguei minha carteirinha e do filhote; quando estávamos na porta, indo embora, uma Sgt. da BM, estava em pé, atrás de uma mesinha decorada e com 3 caixas em cima. Uma com balas, a outra com pirulitos e uma terceira com pipoquinhas doce, se não me engano.
Nosso Arrozinho (apelido do nosso filho), está com sete meses, como disse anteriormente. Ainda não come esse tipo de doces, mas, ela fez questão de presenteá-lo. Foi de coração. E não é que o guri saiu "mordendo" o papelzinho do pirulito?!
Quando estava indo embora, já dentro do ônibus, o gordinho nanando com os pirulitinhos na mão, fiquei refletindo. Olhando pra ele, pra alegria que ele ficou com aquele pequeno gesto, pra tudo o que vivemos lá dentro.

Foto dos pirulitos que ganhamos *-*

Sempre saio com bons sentimentos, de renovação, de felicidade, de bondade, de esperança.

Seja lá quem quer que tenha tido essa idéia de, tentar amenizar nosso sofrimento, eu agradeço. Afinal, essa atitude, vale mais do que mil sentenças. Obrigada às soldadas e sargentas da BM que sempre tratam nosso filho com muito carinho. Desde o 4º dia de vida dele, quando foi conhecer o 'focinho' do papai.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Onde está Ele?

Todos sabem, que faço uso do perfil do Facebook - http://www.facebook.com/maria.esperanca.167 -, um canal de comunicação com familiares de apenados, juízes, advogados e demais profissionais e curiosos da área. Sou muito questionada quanto a minha condição de esposa de preso, sobre o funcionamento do PCPA, sobre o processo, etc. Tem uma pergunta que sempre me fazem, que sempre respondo, de maneiras diferentes; num dia tranquilamente, noutro, indignadamente. Eis a questão: ONDE ESTÁ DEUS?!

Deus, Jeová, Oxalá, Alah, saber onde está eu não sei. Sei que ele vive dentro de nós.

Nem sempre ele vive dentro de alguém, mas na enfermidade, na necessidade, ele surge. É uma força interna, de cada um. É mais do que a fé. Porque, crer que Ele existe, é o que nos traz a fé e, nos move. Passos mais largos, precisos, passos mais retos, caminhos mais longos, porém, gratificantes.

Deus está em nós, quando temos saúde para visitar nosso ente querido - esposo, pai, filho -, que encontra-se encarcerado. Ele está em nós, quando preparamos uma comidinha com todo nosso carinho, mesmo que o sal que a tempere, seja das lágrimas derramadas.

Deus está em nós, quando sorrimos e trazemos boas notícias de fora, como nos tempos da ditadura, que em meio ao desespero, transforma-se em festa. Ele está em nós, quando não abandonamos nos momentos de "tristeza, pobreza, doença"; até porquê, cuidar é um ato de amor e, o que é o amor, senão, a forma mais linda de expressar que temos Deus dentro da gente?!

Cada um traz consigo, um pouco de Deus. Seja na mão amiga, que ampara, no sorriso que acalma, no abraço que acolhe, na palavra que ergue. Deus, se já não foi descoberto, irá se mostrar; mais cedo ou mais tarde. Pode não precisar d'Ele agora, mas, agradeça o que Ele já fez.

Todos temos momentos de revolta, todos já perdemos algo/alguém precioso. Deus, com certeza esteve presente, pela mão ou acalanto de alguém. Falo com propriedade amigos, pode parecer pretencioso mas, já senti Deus dentro de mim, lá, naquele inferno.

Foto: Sidinei Brzuska

# Não frequento nenhum tipo de culto, missão, sessão. Se quer possuo religião. Tenho fé em mim e no Deus que me habita.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

- Escureceu...

- Estamos aqui.
- Pois é...
- Faremos o quê?
- Sobe aí na minha jega.
- Ih... não tô entendendo...
- Pára de bobagem e sobe aí, sem treta.
-  Nossa, que vista linda.
- Pois é, nem quando estava em casa eu via a rua assim.
- Talvez seja isso.
- Isso o quê?
- Lá fora, hoje é mais bonito.
- É. Já pensei nisso.
- Tu viu alí?
- O que?
- A sinaleira.
- Ah, vi sim. Sempre vejo, conto os segundos que ela fica verde, vermelha...
- Tô louco pra dirigir.
- Ué, mas tu não roubava carro? Dirigia todo dia, pagava de bacana... hehehe
- Roubava né, mas era 'trabalho', nunca andei tranquilo, no meu carro.
- O que tu sentia quando entrava nos carros?
- Nada. Só sabia que estava antecipando a minha morte.
- Cara, tu tá prometido lá fora?
- Não.
- Então meu, tu vai voltar pra rua, pra família.
- Não sei meu... Morri aqui. Minha cara, nem vejo num pedaço de espelho. Meu cabelo sem corte algum, o pouco de dignidade que me restou, tiraram de mim, quando minha mãe de 67 anos passou pela íntima.
- É foda cara, mas não te entrega.
- Hoje, morro por dentro, por não ter pensado antes.
- Meu, se te consola, ninguém aqui pensou na consequência do bagulho.
- É, mas o que tem aqui dentro, e bate, é o que bombeia o sangue nas minhas veias e faz latejar minha cabeça, cheia de pensamento. Inconsequente, bandido, ladrãozinho, caso perdido. Pra sempre deliquente.



segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Pena Dividida


Quase morto de saudades,
Vegetando atrás das grades,
Me vem o arrependimento;
Dos erros que pratiquei,
Jamais na vida eu sonhei,
Com tão grande sofrimento...
Fui preso pra ser julgado,
Perante um corpo de jurados,
Recebi à condenação,
Quase cai sentado,
Quando ouvi o resultado;
Trinta anos de prisão...
Esta pena é uma trilha,
Onde sofre mãe, filha,
E a esposa tão cansada,
Que nos dias de visita,
Quando o despertador grita,
Levanta de madrugada;
Toma banho, vai para a cozinha,
Arrumar a sacolinha,
E sai na escuridão,
E muitas vezes chovendo,
Fica em um ponto sofrendo,
A espera da condução...
Chega aqui na portaria,
No amanhecer do dia,
Pega senha no portão,
Segue a fila passo a  passo,
Sentindo grande cansaço,
Entrando nesta prisão...
É grande a humilhação sua,
Tira a roupa e fica nua e,
No chão tem que baixar...
Com o coração despedaçado,
Sofre mais do que eu condenado,
Vindo aqui me visitar...
Com seu sorriso de santa,
Com as lágrimas na garganta,
Fingindo não padecer;
Mas, por dentro ela chora,
Enquanto sorri por fora,
Para não me ver sofrer...
Pois é esse o momento,
Do meu agradecimento,
Do fundo do meu coração,
Peço á DEUS lá nas alturas,
Olhai por esta criatura,
Que me acompanha na prisão.

Foto: Sidinei Brzuska - "Se Deus não ouvir o apelo acima, ela cobrirá todas as 'Marias', com seu manto. Tenho certeza, tenho fé."

Poema recebido pelo Facebook; contribuição da amiga Luciene Neves, via ONG Liberdade Para Todos os Presidiários.

 - Não posso deixar de dizer que é EXATAMENTE assim, é isso e mais um pouco, faço minhas, as palavras do autor. Gostaria de poder parabenizá-lo pessoalmente. Muito obrigada! São poucas as vezes, que conseguem falar por mim.