quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

"...Nada prende mais que um carinho..."

Quantas e quantas vezes, não quis pisar meus pés no Presídio Central. Batia a porta de casa as seis da manhã e me deslocava para lá, sempre pensando "porquê Deus deixa essas coisas acontecerem comigo?!", dentre tantos outros pensamentos, até mesmo suicídas, homicídas e tudo o mais que se possa imaginar.
Nos momentos de lucidez espiritual, pois sou adepta à doutrina espírita, entendia que tinha que passar por isso; mais uma aprovação, mais um desafio, uma G2 quem sabe?! Sim, porque, no mesmo ano, enterrar um filho, três meses depois o sogro e, o esposo ir preso, só se eu tivesse ficado em recuperação, em todas as matérias da vida.
Quantas e quantas vezes, eu pensei em desistir dele, mas nunca lá dentro. Porque desde que ele foi preso, senti pela primeira vez, que ele realmente precisava de mim, como amiga, como mãe, como mulher, como irmã. Porque, sou tudo isso pra ele. Repreendo quando necessário, aconselho, dou risada e amo. Amo muito. Amo tanto que ele chega a duvidar.
- Vem cá, hein?! - pergunto à ele, - Tu consegue ficar sem pensar em mim?
- Não, né... tu me incomoda até nos pensamentos. - responde ele sorrindo, com a boca e com aquelas enormes bolitas azuis, que ele insiste em chamar de olhos.
Me responde agora, como não amar esse ser, apaixonante, inteligente, carinhoso? Há quem diga, que ele é burro, por ter se envolvido com drogas. Discordo. Ele foi fraco, não burro. E no lugar onde se encontrava essa fraqueza, preenchi com amor. Por mim, pelo nosso Arrozinho. Hoje, o que era fraco, agora é forte, porque só o amor sustenta a alma. E uma alma sem amor, jamais conseguiria sobreviver - lucidamente -, no Presídio Central.
Quantas e quantas vezes, eu cansei. De chorar, de correr, de comer, de acordar, de viver. Suicídio não seria prova de amor, porque ele precisa de mim, se é amor, não há abandono. E jamais eu o abandonaria, onde quer que ele estivesse, no calabouço, na masmorra, no inferno ou no Central (que não difere muito dos anteriores). Cansei de muita coisa, mas nunca cansei de amá-lo.
Quantas e quantas vezes, brincamos. Porque não nos importa o lugar, o amor sempre foi mais forte. Sorrimos juntos, aproveitamos a "nossa" gestação do Arrozinho em cada visita que eu ia, ele mexia em minha barriga como se soubesse que conversava com o papai. E, quando nasceu, aos quatro dias foi visitá-lo, não chorou, olhou atentamente para ele e aproveitou o colinho dele por 30 minutos. Inesquecíveis.
Quantas e quantas vezes, quis que existisse uma Lei, que nos deixasse passar uma noite juntos, mesmo lá dentro, em qualquer lugar. Mesmo que ele não goste de cobertas e eu durma de edredom; mesmo que ele queira as janelas abertas e eu insista no ventilador; mesmo que ele me acorde à noite para amar - ok!, concordo que nesse momento, não há objeção alguma, de minha parte...
Quantas e quantas vezes, dei as costas para os portões da galeria E1, pensando que amanhã  ou depois, seria o "grande dia".E, de fato, esse dia, está chegando. Por mérito meu, mérito dele, dos amigos reais e virtuais que nos estendem a mão e, mérito maior do Arrozinho, que fez o papai enxergar motivos para viver novamente.
Quantas e quantas vezes, questionaram meu amor. Nossas famílias, nossos conhecidos, ele mesmo. Os vinte e sete anos de diferença de idade, nada influenciam para mim, amor é amor, não importa a idade; creio que, mesmo no 'auge' dos meus vinte e dois anos, aprendi a amá-lo muito antes dele me amar. Pesaram as idades, o conflito de gerações e a incompatibilidade de gênios. Ele, adora dançar música lenta, já a louca aqui, adora um samba; ele, fica me provocando, enquanto eu caio nas provocações; ele, adora surpreender com presentes em datas inusitadas - praticamente todos os dias, enquanto eu, toda calculista, presenteio com aquilo que acho mais útil.
Quantas e quantas vezes, pensei que não éramos feitos um para o outro. Eis que a vida me pregou uma peça. O amor instalou-se em mim, e qualquer diferença que pudesse "fazer a diferença", dissipou-se no infinito do universo. Estou hoje aqui, declarando-me. E, se algum dia, meus amigos, ele duvidar do meu amor, poderão responder por mim que, em nenhum momento desses - quase - dois anos, deixei de pensar nele, nem um segundo sequer.

Ele pode ter a plena certeza que, mesmo que demore mais um ou dois meses, ou seja lá quanto tempo o judiciário demorar, eu estarei Right Here Waiting...
"Wherever you go, Wherever you do,
I will be right here waiting for you;
Whatever you takes, Or how my heart breaks,
I will be right here waiting for you."


Um comentário:

Hélio disse...

é..assim que se conquista uma pessoa. É assim que se ama sem as grades da mediocridade. Foi assim que conquistei meu céu de brigadeiro nos dias de Janeiro ( me refiro aos olhos azuis dela ) é um pêndulo entorpecedor. Desse amor que você fala, é a melhor pacificidade moral. Perde quem quer comer o mundo sem saber olhar sem pressa o mundo que te olha e que às vezes está sempre em silencio. Esse teu silencio..aí..era um combustível de esperança.Lindo declara-se sempre a quem te ama. Os merecimentos seram amplificados em felicidade plena. Vá..forte pulverizando esse amor.